O Linux vai dominar o mundo

Em 25 de agosto de 1991, um estudante de ciência da computação finlandês chamado Linus Torvalds anunciou em um sistema de mensagens da Internet o seu mais novo projeto pessoal: “Eu estou criando um sistema operacional (gratuito)”. Na mensagem, o jovem estudante deixou claro que era apenas um passatempo.

Contudo, isso se tornou algo maior, muito maior. Hoje em dia, esse sistema operacional de código aberto chamado de Linux é um dos programas de computador mais importantes do mundo: você usa ele todos os dias. O Linux roda em todos os celulares e tablets Android do planeta e mesmo se você estiver usando um iPhone, iMac ou Windows, o Linux está funcionando por trás dos panos – na Internet, onde serve de base para a grande maioria de páginas que você visita e aplicativos que você usa. Facebook, Google, Pinterest, Wikipedia – tudo isso está usando Linux.

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Agora o Linux está no caminho para dominar as televisões, termostatos e até mesmo os carros. Com programas de computador cada vez mais presentes na nossa vida, o sistema operacional desenvolvido por Linus Torvalds também está.

 

A Ideia

Entretanto, Linus não deve levar todo o crédito. As raízes do sistema operacional dele remontam a 20 anos antes de sua criação, quando o UNIX foi criado na chamada “Bell Labs”, da AT&T, em 1969. Por décadas o UNIX foi o sistema operacional padrão para a computação comercial, mas havia um problema: ele foi criado pela AT&T e só funcionava em computadores de alto padrão. Os chamados geekies queriam algo que pudesse funcionar nos seus computadores pessoais, não apenas em computadores de elevado custo.

Em 1984, Richard Stallman começou a trabalhar no GNU, um clone do Unix cujo acrônimo paradoxalmente significa “GNU’s not Unix” (em português claro, GNU significa “GNU não é Unix”). Por volta de 1991, Stallman e sua empresa haviam reescrito boa parte do Unix, mas eles não tinham uma parte importante: o kernel, que é uma das peças fundamentais de um sistema operacional, responsável por conversar com o hardware e traduzir as entradas de um teclado, mouse e touchscreen em alguma coisa que um software possa entender, por exemplo. Então Torvalds decidiu criar um kernel.

Em pouco tempo, outros desenvolvedores estavam usando o kernel Linux em combinação com o GNU e uma grande variedade de ferramentas. Muitas pessoas ainda insistem em chamar esses sistemas operacionais de “distribuições GNU/Linux”, mas é o kernel que serve de base para o Android e muitas outras aplicações novas de software.

 

A Web e o Linux

A ascensão do Linux reflete a ascensão da Web (“World Wide Web” – WWW), que começou mais ou menos na mesma época. É difícil dizer o quão popular o Linux é na web, mas de acordo com um estudo da W3Techs, sistemas operacionais Unix e Unix-like rodam em 67% de todos os servidores web do mundo. Pelo menos metade desse montante roda Linux – provavelmente a grande maioria.

Até mesmo a Microsoft, que já foi inimiga jurada do Linux, adotou esse sistema operacional de código aberto.

Em 2012 a empresa anunciou que aceitaria que outras empresas usassem Linux no seu serviço de computação nas nuvens, Microsoft Azure. Nesse exato momento, cerca de 1/3 das instâncias do serviço usam Linux em vez de Windows. A própria Microsoft está usando Linux para algumas funções de rede da Azure – e o Linux é tão essencial para a Web que a Microsoft ainda fez uma parceria com a Canonical (criadora do Ubuntu) para tornar mais simples o processo de desenvolvimento de sites utilizando Linux em sistemas operacionais da Microsoft.

Existem algumas razões para isso. A mais óbvia é que enquanto você precisa pagar por uma licença do Windows Server, a maioria das versões do Linux estão disponíveis para download de graça mesmo para empresas e grupos com fins comerciais. Além disso, o Linux possui código aberto, o que significa que qualquer um pode modificar e redistribuir o seu código-fonte como quiser, adaptando o código às suas necessidades.

Com o crescimento da web, os desenvolvedores usaram o Linux para lidar com suas necessidades e também lançar novos sistemas operacionais baseados em Linux que possuiam todos os seus programas e ferramentas preferidos. Tecnologias importantes como o servidor web Apache/Nginx, banco de dados MySQL e a linguagem de programação Php/Perl/Python se tornaram padrão de todas as maiores distribuições Linux.

Contudo, o Linux também teve sorte. Ele não foi o único sistema operacional gratuito da década de 1990, mas uma batalha legal entre a AT&T e uma empresa chamada Berkeley Software Design diminuiu o crescimento das principais alternativas ao Linux.

 

Futuro do Linux

Por anos o Linux permaneceu no plano de fundo, escondido enquanto rodava os servidores web das principais empresas do mundo, sem nunca encontrar muito sucesso nos dispositivos pessoais. Isso mudou em 2008, quando o Google lançou o Android e o Linux finalmente encontrou seu caminho no mundo dos celulares. O Android não pode executar aplicações Linux que não foram “traduzidas” para a plataforma do Google, mas o sucesso do Android promoveu uma grande ascensão do Linux e da comunidade de código aberto, finalmente mostrando que essa comunidade podia trabalhar em aplicações para usuários finais.

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O Android agora domina o mercado de celulares. De acordo com a empresa de pesquisas de mercado Gartner, o sistema operacional Android possuia 84% do mercado durante o primeiro trimestre de 2016. Agora o alcance do Linux está indo muito mais longe do que apenas celulares: você pode encontrá-lo em smart TVs da Samsung e LG, termostatos Nest, leitores digitais Kindle (Amazon) e drones de empresas como a 3DR, só para citar alguns exemplos.

As grandes telas nos carros da Tesla também rodam Linux e muitas outras empresas – incluindo Toyota, Honda e Ford – patrocinam o projeto Automotive Grade Linux, que é dedicado a construir software para carros conectados. Além disso, quando os carros autônomos chegarem no mercado, pode apostar que eles funcionarão sobre o Linux.

Hoje as empresas usam o Linux para construir novas tecnologias pela mesma razão que desenvolvedores web utilizaram o sistema operacional na década de 1990: eles podem adaptá-lo para as suas necessidades e então compartilhar (ou vender) os resultados sem ter que pedir permissão para isso. E tudo isso por causa de um estudante finlandês que quis compartilhar o seu trabalho com o mundo. Nada mal para um passatempo.

Fonte original: Wired